Francisco Stockinger

Nascido em 1919 na Áustria, emigrado para o interior do interior do Brasil, passa a infância em São Paulo onde sonha ser piloto, (e acontece ser aluno de Anita Malfatti), a juventude no Rio de Janeiro onde busca o aprendizado de escultura com Bruno Giorgi e a idade adulta em Porto Alegre, onde se afirma como um dos grandes escultores do país. Dito assim parece fácil. Não é.

 

O processo de imigração passa por um campo de concentração na Europa e a chegada à Colônia Costa Machado (SP), lugarejo que deixou na sua memória apenas uma lembrança: o apito do trem. Nessa época ainda escutava - hoje vive imerso numa surdez absoluta. A mãe inglesa não suportou as dificuldades da vida no campo e parte com o filho para a cidade grande. Fica demarcado aí o afastamento do pai, para sempre cidadão da Colônia Costa Machado e pouco interessado nas andanças do filho.

 

Os fins de semana de menino pobre, em São Paulo, lançam-no a copiar desenhos do jornal. Interno como bolsista no Colégio Mackenzie, se apaixona pelo traço de Belmonte e, mais tarde, pelo Flash Gordon de Raymond. É quando decide morar no Rio, numa pensão, onde divide o quarto com três amigos. Nada dramático: de coração do tamanho de um bonde, como se diz no Sul, faz caber outros tantos que não têm onde dormir.

 

Começa a fazer caricaturas, capas e ilustrações que viriam a ser seu ganha-pão. Mas sonha, mesmo, em voar. Faz o primeiro curso de meteorologia de nível universitário no Brasil, mas o tempo estava fadado a ser destinado às artes: um colega mudou seu norte ao levá-lo a uma exposição de Maillol e outra de Lasar Segall.

 

Ficou sabendo o que hoje parece óbvio: precisava trilhar os caminhos do domínio das artes. Procurou Bruno Giorgi, que trabalhava no Hospital da Praia Vermelha, no Rio, e foi- se deixando ficar.

 

Literalmente: era o último a sair. Varria o chão, queria ficar próximo do Mestre. À noite frequentava o Bar Vermelhinho e o Mangue, conhecidos da boêmia carioca. Foi nesta época, no apartamento de Maria Leontina, que conheceu Iedda, sua mulher e mãe de seus dois filhos, avó de seus três netos.

 

Muda para Porto Alegre e vai trabalhar como diagramador num jornal, para manter a família. Começa a fazer xilogravura. Corria a década de 50 e o Clube da Gravura tinha imposto sua presença no Sul, Xico, homem político, não adere. Rápida passagem pelo Partido Comunista, não quer se comprometer com o Realismo Social que caracterizou os gravuristas gaúchos neste período. Constrói uma obra de acentuado viés social a partir de personagens como os do Mangue carioca - a zona de prostituição. Um tema frequente são as mulheres: mulheres de ancas largas e seios fartos.

Com a venda destas primeiras gravuras, monta nos fundos da casa um barraco para fundição. Consegue emprego de chargista no jornal: já pode se dar ao luxo de ser escultor. Tinha conhecido Calder no Rio e a obra de Henry Moore na LI Bienal de São Paulo. Tinha e tem enorme admiração por Giacometti, que assim como Van Gogh classifica como artista emocional, em oposição aos cerebrais Mondrian e Brancusi. Ele próprio transita entre os dois pólos: suas primeiras esculturas, de forte marca expressionista, tem como tema a figura humana.

 

Saem de seu atelier exércitos de guerreiros e bravas mulheres em bronze e também em ferro e madeira. Sua carreira vai de vento em popa: ao longo da década de 60, ganha primeiros prêmios em salões de arte em Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba e expõe em duas Bienais Internacionais de São Paulo.

 

No final deste período em que se diz cansado de guerra, vai repousar nos mármores, que desveste em formas muito mais para Brancusi que para Rodin. Criou os Guerreiros, os Prisioneiros e os Sobreviventes para afirmar o sentido social que sempre enxergou na arte.

  

Fez os mármores para descansar da guerra que sabia ser impossível ganhar com a arte. Chegava ao final à primeira década da ditadura no Brasil. Haveria mais toda uma década sob o jugo militar. Ironia pura: nunca se fez tanta arte engajada quanto neste período da história brasileira. Stockinger é interrompido por três pontes de safena e longo período de repouso. Inventa uma novidade, que explica como "lazer de surdo".

Torna-se colecionador de cactos e sai pelas estradas afora a vasculhar mudas e, como tudo que faz, vira especialista. Hoje, quando passeia em sua ampla estufa num dos pontos mais bonitos de Porto Alegre, mostrando com orgulho as raras flores de cactos, fico pensando que faz todo sentido do mundo. Xico só podia mesmo ser escultor surdo e colecionar cactos.

 

Não que seja um homem áspero: não é. Pelo contrário. É afável, bem humorado, gosta de gente. Tem uma sala de sinuca onde convive com os amigos, para os quais também gosta de cozinhar. É que a superfície dos cactos tem tudo a ver com a pele das suas esculturas - em especial com a pele destes bronzes, que são uma culminância em sua obra.

 

Stockinger trabalhou ao longo do ano de 1995 produzindo doze enormes bronzes. São mulheres maiores que a proporção simplesmente humanas. São mulheres monumentais. Ele que fizera tantos guerreiros e alguns sobreviventes nos anos 60, 70 e 80 - chega a meados dos 90 entoando um hino de louvor às formas femininas. Pergunto se trabalha com modelo vivo. Ele desconversa: “se aos 76 anos eu ainda não souber tudo sobre mulher, quando é que vou saber?".

Stockinger aos 76 anos está no apogeu da vida. Suas figuras em bronze condensam a experiência de artista e personagem. A pele da escultura é lacerada e a mão não escorrega sobre esta superfície como num mármore polido. Nem poderia ser de outra forma.

 

As figuras de Stockinger trazem a história da luta desde a Áustria, Colônia costa Machado, São Paulo, Rio, Porto Alegre, cactos e pedras do mundo. São as feridas do herói clássico, o herói que é continuamente exposto às forças da natureza e sai lacerado do combate, mas conquista o Éden.

  

Arte Pública

  

Exposições, participações em salões e premiações

  • 1948 - Salão Nacional de Belas Artes, Divisão Moderna - Medalha de Bronze, Rio de Janeiro/RJ

  • 1949 - Salão Nacional de Belas Artes, Divisão Moderna - Medalha de Prata, Rio de Janeiro/RJ

  • 1950 - Exposição Coletiva de Escultura. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro/RJ

  • 1951 - Salão da Câmara Municipal do Distrito Federal, Rio de Janeiro/DF - Diploma de Alto Mérito1952 - I Salão Nacional de Arte Moderna, Rio de Janeiro - Membro do Júri de Salão e Premiações

  • 1954 - III Salão Nacional de Arte Moderna, Rio de Janeiro/RJ - Salão da Câmara Municipal do Distrito Federal, Rio de Janeiro/DF - Medalha de Ouro

  • 1957 - Salão da Câmara Municipal de Porto Alegre, Porto Alegre/RS - 1 ° Prêmio em Gravura

  • 1959 - Exposição Individual de Xilogravuras. Pequena Galeria da Biblioteca Pública Municipal de Salvador/BA

  • 1960 - I Festival de Artes Plásticas da Divisão de Cultura do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS - 1 ° Prêmio em Escultura

  • 1960 - Exposição Individual de Gravura. Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS. Salão de Arte Cristã. Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS - 1 ° Prêmio

  • 1961 - XVI Salão Municipal de Belas Artes, Belo Horizonte/MG - 1 ° Prêmio em Escultura. Exposição com Marcelo Grassmann. Galeria de Arte São Luiz, São Paulo/SP

  • 1961 - VI Bienal Internacional de Arte de São Paulo

  • 1961 - Exposição Individual na Galeria de Arte São Luiz, São Paulo/SP

  • 1961 - Exposição com Marcelo Grassmann. Petite Galerie, Rio de Janeiro/RJ

  • 1961 - Salão de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS - 1 °. Prêmio em Escultura. Bienal de Garrara, Itália - Representante do Brasil

  • 1962 - Bienal de CarraraItália - Representante do Brasil

  • 1963 - I Salão Cidade de Porto Alegre - 1 ° Prêmio em Escultura

  • 1963 - XII Salão Paulista de Arte Moderna - Medalha de Ouro

  • 1963 - XXI Salão Paranaense de Belas Artes, Curitiba/PR - Medalha de Ouro

  • 1963 - Instalação da escultura em bronze "Dona Veridiana" em praça pública da capital de São Paulo. Obra encomendada pelo embaixador Assis Chateaubriand

  • 1963 - VII Bienal Internacional de Arte de São Paulo

  • 1964 - Exposição Individual, sob o patrocínio do Instituto Cultural Brasileiro-Alemão, Porto Alegre/RS

  • 1964 - "Exposição de Arte Brasileira" na Europa, sob os auspícios do Itamaraty - Artista convidado

  • 1964 - Exposição Individual na Galeria São Luiz, São Paulo/SP

  • 1965 - Exposição Individual na Galeria Lakar, Porto Alegre/RS

  • 1965 - Salão Comparaison, Mostra de Arte Brasileira. ParisFrança, itinerando para Lisboa e 

  • 1965 - VIII Bienal Internacional de Arte de São Paulo

  • 1965 - Exposição Individual, comemorativa a seus vinte anos de atividade artística. Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS

  • 1966 - I Bienal Nacional de Artes Plásticas, Sala Especial, Salvador/BA - Prêmio Aquisição

  • 1965 - Exposição Individual de Cerâmicas e Esculturas. Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS

  • 1965 - Exposição Individual de Cerâmicas e Esculturas. Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS

  • 1965 - Exposição Individual de Esculturas e Desenhos. Galeria Bonino, Rio de Janeiro/RJ

  • 1965 - "Arte Hoje no Rio Grande do Sul." Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS

  • 1965 - XXIII Salão Paranaense de Belas Artes, Curitiba/PR - Prêmio Aquisição

  • 1967 - Escultura Moderna Brasileira, Casa de La Paz, Cidade do México, México

  • 1968 - Exposição Individual. Galeria Mirante das Artes, São Paulo/SP

  • 1969 - Mostra Comemorativa "Cinquenta Anos de Vida". Galeria Portinari, Instituto de Idiomas Yázigi, Porto Alegre/RS

  • 1970 - Exposição Individual de Esculturas em Mármore. Galeria Documenta, São Paulo/SP

  • 1970 - I Salão de Artes Visuais. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS

  • 1970 - Exposição Individual. Galeria Mirante das Artes, São Paulo/SP

  • 1972 - Exposição Individual de 1970 - Esculturas. Galeria Bonino, Rio de Janeiro/RJ

  • 1973 - Um dos dez convidados para o 1° Encontro de Escultores Comemorativo ao Sesquicentenário de AleijadinhoOuro Preto/MG

  • 1975 - Convidado especial na Mostra de Cerâmica Artística. Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS

  • 1975 - Bienal da Pequena Escultura, BudapesteHungria - Representante brasileiro

  • 1975 - III Salão de Artes Visuais, Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Membro do júri

  • 1976 - Exposição Individual de Esculturas. Galeria de Arte da Casa do Brasil, Roma/Itália

  • 1977 - Exposição Individual de Desenhos, Esculturas e Múltiplos na Oficina de Arte, Porto Alegre/RS

  • 1977 - IV Salão de Artes Visuais. Universidade Federal do Rio Grande do Sul/Fundação Nacional de Arte - FUNARTE - Membro do júri de seleção e premiação

  • 1978 - Exposição Individual de Esculturas. Galeria B-75, Rio de Janeiro/RJ

  • 1980 - Mostra comemorativa "Homenagem a Xico Stockinger". Galeria de Arte do Centro Comercial de Porto Alegre, Porto Alegre/RS

  • 1980 - Exposição Individual de Esculturas. Bolsa de Arte, Porto Alegre/RS

  • 1980 - I Feira do Pequeno Bronze. Centro Municipal de Cultura, Porto Alegre/RS. 1981 - Exposição Inaugural. Galeria Tina Presser, Porto Alegre/RS

  • 1980 - Exposição Individual. Galeria Aktuell, Rio de Janeiro/RJ

  • 1980 - Escultura ao Ar Livre, II Festival de Verão do Guarujá, em São Paulo

  • 1983 - Exposição de Arte Erótica, juntamente com Vasco Prado. Galeria Tina Presser, Porto Alegre/RS. Exposição Individual de Esculturas. Galeria Ponto d'Arte, Santana do Livramento/RS

  • 1980 - Exposição Coletiva "Escultores Gaúchos". Galeria Skultura, São Paulo/SP, por ocasião do lançamento do livro "Escultores Contemporâneos do Rio Grande do Sul", de Armindo Trevisan

  • 1980 - II Mostra de Escultura. Centro Municipal de Cultura, Porto Alegre/RS - Artista homenageado

  • 1984 - V Salão Paranaense de Cerâmica, Curitiba/PR - Membro da comissão julgadora

  • 1985 - Exposição Individual de Mármore,. Galeria de Arte Paulo Figueiredo, São Paulo/SP

  • 1985 - Exposição "Destaques da Arte Brasileira". Museu de Arte Moderna de São Paulo, São Paulo/SP - Artista convidado

  • 1985 - Exposição Individual de Escultores em Mármore e Ônix. Galeria Tina Presser, Porto Alegre/RS. XVIII Bienal Internacional de São Paulo - Artista convidado

  • 1985 - Panorama de Arte Tridimensional. Museu de Arte Moderna de São Paulo, São Paulo/SP - Participação especial

  • 1986 - Organiza exposição comemorativa dos 80 anos de Bruno Giorgi, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS

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